Menos anestesia, por favor!

Nem sempre é natural pensar que somos responsáveis pelos nossos atos. Preferimos assumir a autoria dos nossos bons feitios, mas nossos atos ruins… Ah, se pudermos ocultá-los melhor, não é? Não. A partir do momento que assumimos que somos responsáveis pelo o que fazemos, devemos arcar com as consequências. E é graças a isso que podemos consertar o que estragamos no nosso caminho.

A vida é recheada de fatalidades e se alguma pedra cai na nossa cabeça, aí sim, não dá para nos culpar de estar naquele lugar, no exato momento em que a pedra “resolveu pular”. Algumas pessoas que descobrem o poder que carregam em si ao assumirem seus atos, dores e encrencas, tendem a achar que podem calcular tudo, inclusive a pedra. Aí já é demais. Até podemos evitar as pedras, mas quem as evita também foge das coisas boas, pois viver é correr riscos constantemente.

É fato que se estamos sofrendo por alguma razão, nossa vida fica mais amarga. Não é fácil de engolir. E nós vamos ficando mais amargos também. Nem sempre dá para controlar tudo. E perder o equilíbrio faz parte. Os heróis do auto controle tendem a apontar o dedo para nós, nos mostrando que a amargura que vivemos é culpa nossa… Nessas horas o tal provérbio “ama-me quando eu menos mereço pois é quando eu mais preciso” é a mais pura verdade.

Penso que viver é nadar numa gamela infinita em si mesmo de amor, sensibilidade e beleza. Mas também é nadar numa gamela infinita de desafios, dores e desafetos. Creio que a tal sabedoria que vivemos buscando é equilibrar nossa gamela: nem muito ácida, nem muito alcalina, nem muito amarga, nem muito doce. É andando na corda bamba dos opostos que nadamos em paz na nossa gamela – vida.

Se jogamos (ou se jogarem) ácido demais na nossa gamela, levará um tempinho para ela se equilibrar de novo. Se ela ficar açucarada demais, também… Pois tudo nessa vida tem seu tempo. E enquanto ele passa, vou procurando pelas belezas (e por alguma ironia encontrar feiúras é bem fácil…).

E nessa brincadeira de viver, mergulhados oras em dores e oras em amores, vamos trilhando a vida. Os dissabores fazem parte.

O importante, acima de qualquer coisa, é não se anestesiar diante das dores. “A gente se acostuma”, dizem uns… E eu respondo daqui: “cuidado!”. Pois quem se anestesia para as dores, se anestesia para as flores também.

O homem tem o estranho hábito de conseguir criar beleza diante da dor. Santa sensibilidade que nos faz doer o peito e busca o belo como alívio… Ela é como um termômetro que diante da dor faz o bulbo subir. Quanto mais dor, mais o bulbo sobe… Em alguns casos, chega até a explodir. E só existem dois antídotos contra essa explosão: beleza e amor. Ambos tem o poder de aliviar a dor causada pelo sofrimento.

Viver não é simplesmente uma moeda de duas faces… É um jogo sem cartilha que dança, serpenteia, sobe, desce… Para que o fel e o mel se equalizem nas nossas gamelas, precisamos das forças vindas das belezas e dos amores; nas suas mais variadas formas. E até que nossa gamela se quebre, que sejamos cercados de amores, sabores, dores e belezas e que a vida pulse com a sensibilidade a flor da pele!

Anestesias? Aqui não!

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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