“Sobre águias e urubus”

Era uma vez uma águia. Desde pequena, nascida num ninho dentro do oco de uma montanha bem alta, conviveu com as alturas. Seu grande sonho era poder voar mais alto que todas as pipas, encostando nas nuvens do céu.

Toda vez que se lançava ao voo, lá das alturas, dava um mergulho no vazio e atirava-se, toda cheia de coragem e frio na barriga (pois coragem é isso, lançar-se a despeito do medo).

Voava plácida, onde se ouvia o silêncio absoluto. Sentia no seu íntimo o quão prazeroso era entregar-se à pureza do ar e à beleza do sol. O mundo lá de baixo não lhe importava. Ela só queria gozar a liberdade do seu voo. Por isso podia voar alto: não fazia questão de enxergar o que acontecia em terra firme. Seus pais haviam lhe ensinado que quem voa baixo para vigiar o que os homens estão fazendo, tem medo da liberdade e está sempre mais preocupados com o que os outros pensam que consigo mesmo… Assim nossa querida e mansa águia vivia lá no alto, onde só os mais valentes se atrevem ir.

Bem mais baixo que o ninho onde nascera, porém na mesma montanha, nasceu uma bela ninhada de urubus. Urubus como todos sabem, vivem em busca de carniça. Nada no mundo deles é mais importante que a suculenta carniça, resto que fica depois que a morte faz seu trabalho.

Todos os seres vivos são dotados de brilho nos olhos, alma que lhes sussurram vontades, amor e magia pelo encanto da vida. Ao morrerem, todas as coisas boas e bonitas se vão. Fica só a carniça, matéria que apodrece e se torna mal cheirosa. Pois é justamente pela carniça que os urubus se interessam. Não lhes comove a liberdade, muito menos a beleza. Só querem saber daquilo que se decompõe, cercado de moscas e larvas. Por isso voam baixo para poder vigiar a vida na terra. Seus pensamentos não importam. O que lhes importa na verdade é vigiar o pensamento e a vida dos outros, para que toda deliciosa carniça seja encontrada!

As águias voam felizes nas alturas dos céus.

Os urubus voam felizes, porém não tão alto.

Aconteceu um dia uma pessoa míope olhou para o céu, viu um urubu e achou que fosse uma linda águia que voava plácida pelas alturas. Ficou comovida pela beleza do voo da imaginária águia, chamou seus amigos e lhes mostrou apontando para o céu a beleza que vira. Muitas pessoas se juntaram para admirar a beleza da suposta ave que voava. Todos admiravam o urubu, achando que ele lhes falava sobre a beleza do voo livre.

Diferente da velha fábula “A roupa nova do rei”, onde todos viam que o rei estava pelado mas ninguém tinha coragem de falar a verdade, as pessoas desta história olhavam para o urubu mas não o enxergavam. Diante delas voava um linda e bela águia, tão linda quanto só a nossa imaginação pode pintar.

Um menininho curioso, querendo ver a águia de perto, resolveu olhar através de um binóculo. Para a sua surpresa, viu que a bela águia na verdade era um urubu. Ninguém acreditou nele. E curiosamente, ninguém quis olhar pelo binóculo para checar se o menino falava a verdade… As pessoas ficaram com raiva do menininho, por querer estragar o encanto de beleza do urubu!

Na vida, é assim… Os que tem a alma míope, permitem que urubus se tornem águias e que águias se tornem urubus. O que não é permitido é que a miopia seja revelada e a verdade dita. Pois todos os míopes juram de pés juntos que enxergam de forma clara e cristalina…

COMPARTILHAR
Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



COMENTÁRIOS