Marmanjo, maior, vacinado, inteligente e saudável, mas ainda embaixo das asas dos pais

É paradoxo observar o comportamento de certos homens hoje em dia, que, por um lado, buscam sua emancipação, cobram seu lugar na sociedade, dão palpites sobre política e tudo quanto é assunto, andam pelo mundo como adultos, mas, ao mesmo tempo, ainda moram na casa dos pais.

São homens de 25, 30 ou mesmo 40 anos, saudáveis, inteligentes, fortes o suficiente para enfrentar a vida, mas que nunca abandonaram o ninho e ainda vivem sob as asas da mãe e do pai. Não me refiro a constelações saudáveis, adultas e voluntárias de convívio entre pais e filhos, nem a situações onde os recursos materiais não permitem outra solução. Refiro-me a filhos que podem e deveriam ir para amadurecer e não o fazem, seja por comodismo, por medo de enfrentar a vida ou mesmo porque os pais não permitem que eles finalmente tomem seu caminho. Não me compete julgar esses homens e seus pais, já que temos todos o direito de vivermos como quisermos e certamente muitos encontram nessa forma de vida sua satisfação pessoal, mas constato que essa dependência muitas vezes (talvez até na maioria das vezes) traz sofrimento, pois freia o crescimento dos envolvidos e pode transformar o ninho familiar numa verdadeira prisão, da qual só se liberta com muita dificuldade. Em alguns casos, não há sofrimento aparente devido à falta de amadurecimento do filho “preso”, que nem lhe permite se dar conta da prisão, mas ainda assim não podemos falar de uma vida plena.

São muitos os motivos que levam um homem adulto a abrir mão de viver sua própria vida, de sair de casa e cortar finalmente o cordão umbilical. Mas há um motivo comum em todos os casos de “marmanjo no ninho”: a postura dos pais, já que filhos adultos só ficam em casa quando pai e mãe permitem ou até mesmo querem e incentivam isso.

Preso pelos pais

Normalmente, homens adultos “presos no ninho” são filhos de pais egoístas. Sim, egoístas, pois somente um acentuado egoísmo explica porque genitores permitem que os filhos fiquem dentro de casa ou até mesmo os segurem. Mesmo quando se trata de filhos adultos, os pais jamais podem se isentar de sua parcela de responsabilidade por seu desenvolvimento. Se o filho já tem 30 anos ou mais e ainda vive em casa, é claro que isso significa que os pais não conseguiram ou mesmo não quiseram prepará-lo para um dia seguir seu próprio caminho. O problema aqui é uma compreensão errônea do que significa ser pai ou mãe, que faz com que muita gente veja os filhos como propriedade e não como um ser livre, que pode e deve viver sua vida da forma que bem desejar. Pais que não são egoístas fazem de tudo para que sua cria siga seu caminho, com liberdade e autonomia, o mais cedo possível.

Mesmo que não admitam, esses pais são movidos pelo medo de ficarem sozinhos, principalmente na velhice, ou pelo medo de enfrentar um possível vazio de uma vida sem filhos para cuidar. E esses pais desenvolvem diversas estratégias para prender os filhos e mantê-los por perto.

Tem aqueles que que lamentam, que expressam o desejo do filho (finalmente) ir embora e o culpam por ficarem, mas ainda aqui a responsabilidade maior é deles e não do filho, já que o marmanjo só fica agarrado no ninho quando os pais aceitam. Se os pais decidem que chega de dar abrigo ao filho adulto, o marmanjo sempre termina se virando de algum jeito. Os pais terminam sendo egoístas mesmo quando supõem agir por preocupação, por acreditarem que o filho não daria conta de viver só, pois isso, em primeiro lugar, não seria verdade, já que o filho daria conta de sua vida de alguma forma. E, em segundo lugar, mesmo que a saída de casa signifique sofrimento para o filho, é necessário que os pais entendam que filhos têm o direito de sofrer, de tomar decisões erradas, de caminhar na direção “falsa” e assim aprender e crescer.

Entretanto, é necessário que seja dito a favor desses pais que toda essa dinâmica de egoísmo, dependência e “prisão emocional” muitas vezes não é fácil de ser reconhecida, já que se instala aos poucos, no decorrer dos anos, de uma maneira sutil, inconsciente. Assim, muitos pais não percebem essa dinâmica, agem acreditando estar fazendo o certo e têm as melhores das intenções. Por isso é muito importante que os pais reflitam sua postura no relacionamento com os filhos adultos que não saem de debaixo de suas asas, com a coragem de enxergar sua parcela de responsabilidade pela situação.

Preso pelo medo

Como já dito, são muitas as estratégias dos pais para prender filhos perto de si. Um mecanismo muito sutil (e perigoso) é fazer com que o filho cresça acreditando em suas limitações, em sua incapacidade de se virar sozinho neste mundo, em sua inferioridade. Essa crença na própria incapacidade pode fazer com que o filho desenvolva o sentimento de medo de sair de casa e fracassar, de não conseguir viver sem a ajuda e o amparo dos pais. Esse medo prende muita gente, mesmo que ele seja infundado, já que todo ser humano adulto e saudável tem todas as capacidades que precisa para administrar sua própria vida.

Preso pelo sentimento de culpa

Às vezes, o filho nem teria medo de sair e enfrentar a vida, mas não o faz por se sentir responsável pelos pais. Aqui também o problema se forma durante anos, com os pais, consciente ou inconscientemente, fazendo chantagens emocionais, dizendo sutilmente ao filho que precisam dele, que não poderiam viver sem ele e coisas similares. O filho, mesmo querendo ir, termina ficando, pois acredita que estaria fazendo um erro se deixasse os pais “sozinhos”. Ele tem medo de dar esse passo para que a consciência não pese, já que só um desnaturado se afastaria de pais “necessitados”, fazendo-os sofrer, não é mesmo?

Aqui seria importante para o filho reconhecer que ele não tem qualquer obrigação de deixar de viver sua própria vida para o conforto dos pais. Pode ser que pai e/ou mãe realmente necessite da ajuda do filho e seria algo nobre se esse filho ficasse perto para cuidar, mas isso não significa que ele deve morar na mesma casa e muito menos abrir mão de seguir seu próprio caminho. Todo filho (ou filha) tem o direito de viver sua vida sem precisar ter qualquer sentimento de culpa por causa disso.

Preso pela manipulação

Fazer o filho acreditar que é incapaz de viver sozinho ou fazer chantagem emocional para causar sentimento de culpa no filho, como descrito acima, são formas claras de manipulação, mas não são as únicas. Pais manipulam os filhos de muitas diferentes maneiras, em diversas situações, interferindo em suas decisões, dando palpites sobre seu trabalho, seus estudos, até mesmo sobre seus relacionamentos amorosos, moldando seu caminho e evitando que eles vivam suas escolhas. E dessa maneira eles cuidam direitinho para que o filho fique, dando-lhe motivos e argumentos para acreditar que a vida embaixo das asas dos pais seria melhor que qualquer voo livre.

Pode também ocorrer uma manipulação por parte do filho, que, por ter suas ventagens na situação, faz questão então de convencer os pais de que eles precisam do marmanjo por perto ou então de que ele, o filho, é um coitado, que não saberia resolver sua vida sozinho.

Preso pelo aspecto financeiro

Sem dúvida, uma das desculpas mais usadas tanto pelos pais como pelo marmanjo que fica em casa é o aspecto financeiro, já que é mais barato morar na casa de pai e mãe do que financiar a própria moradia, mas essa justificativa só vale quando se tem uma escolha. Se o mesmo homem adulto não tivesse mais pai e mãe, ele não teria que se virar de alguma forma? E ele se viraria! Então, o aspecto financeiro, por mais que pese, nunca é um obstáculo insuperável e não é realmente um motivo para ficar agarrado aos pais.

Preso pelo comodismo

Papai e mamãe cuidam de tudo, comida diariamente na mesa, roupa lavada, contas pagas… É claro que é muito mais confortável viver no “hotel papai e mamãe” do que cuidar da própria vida, e isso faz com que o marmanjo se entregue ao comodismo, ficando ao invés de ir, se acomodando ao invés de progredir e amadurecer.

Preso pelas eternas desculpas

Tanto faz quais são as desculpas: se uma pessoa adulta não sai de dentro da casa dos pais, ela não sai porque não quer. Como adulta, essa pessoa é sempre responsável por sua própria vida. Mesmo que os pais façam de tudo para segurar o filho adulto em casa, ele só fica se quiser. E se os pais não querem mais o filho embaixo das asas, ele só fica se os pais permitirem. Aqui o caminho é perceber que ninho não é gaiola, não tem porta trancada e que basta bater as próprias asas e voar, correndo os riscos inerentes à vida, mesmo o risco de cair e se machucar, já que isso faz parte de nosso processo de desenvolvimento e independência. Chega de desculpas esfarrapadas e de esperar pelo momento certo de abandonar o ninho (ou de ser colocado para fora dele pelos pais), pois já se passou desse momento assim que o filho se tornou adulto.

TEXTO DEGustl Rosenkranz
FONTECaminhos
COMPARTILHAR
Revista Pazes
Uma revista a todos aqueles que acreditam que a verdadeira paz é plural. Àqueles que desejam Pazes!



COMENTÁRIOS