É no silêncio que o sol, dentro em nós, amanhece

Sim, há muitos fabricadores de noites horrendas. Há que dissemine a discórdia e furte o sonho do pobre. Há quem fomente a miséria e blefe com a bondade do outro. Há quem forje palanques para surrupiar o povo. Há quem negue o necessário e vital ao próximo a fim de garantir a posse de seu supérfluo inútil. Sim, eu sei de tudo isso. Nenhuma utopia deve fechar os olhos daquele que caminha.

Contudo, mesmo na noite mais escura, quando as dores do mundo produzem ais e gemidos capazes de ensurdecer, de ensandecer, de angustiar e de fazer com que tenhamos os presságios mais sombrios sobre o destino dos povos, não raro muitas pessoas são capazes de interpretar o silêncio da mão invisível que acalanta a alma do mundo.

É que a bondade não faz alarido. O amor é um teia tecida no silêncio das preces, na delicadeza de pequeninos gestos, na irradiação das luzes do olhar amante. E são inúmeros, são eternos, são infinitos aqueles que o tecem…

O verdadeiro Poder não faz ruído. Quanto mais poderosa é a lágrima de uma mãe que imanta de Justiça o futuro que lega ao seu filho que as mil pragas que assolam as noites abissais?! E haveria mais força naquele que corrompe e surrupia o povo que naquele que, no silêncio das madrugadas, sai pelas ruas a prover o pão ou o agasalho àqueles cuja alma e o corpo padecem sem o calor do abrigo e sem a força que provem do alimento?

É que o Amor labora em silêncio e é em silêncio que ele nos fala. É no silêncio que o beija-flor dissemina o pólen de um novo jardim. É em silêncio que a mente desperta e se expande. É no silêncio que o sol, dentro em nós, amanhece.

Nestes momentos em que a noite aparenta dominar os nossos sentidos, é preciso silenciar o espírito. É no silêncio, vazios de verdades, de vaidades, vazios de certezas, que sintonizamos com o silêncio eloquente da Mão que nos acalanta.

E percebemos que o alarde dos fabricadores da noite contrasta com silêncio da aurora que no céu, em nós, vem surgindo: vagarosa, invencível e bela. Prenúncio de um novo tempo em que os fabricadores da noite se cansarão da ignorância e também ajudarão a fazer florir os contornos de uma nova era.

Por ora, silencia e ama. Silencia e luta. Silencia o medo, que o melhor nos espera.

Fotografia de capa:Lilia Alvarado Photography

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Nara Rúbia Ribeiro
Advogada, poeta, escritora, idealizadora e responsável pela edição geral da Revista Pazes.



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