Reflexão sobre a isonomia e suas “quebras” – Por Leandro Karnal

Sei que o tema é delicado e complexo. Expresso, como sempre, minha visão de mundo. Não odeio quem tem outra. Hoje faz 444 anos do Massacre de São Bartolomeu, ocorrido no momento em que os franceses deixaram de ouvir uns aos outros e passaram a dividir o mundo em nós e eles…

Sinto que as pessoas aceitam ,com facilidade, quebras na isonomia. Aceitam que gestantes, lactantes, idosos, cadeirantes, bebês de colo etc passem à frente das filas, quebrando por outros valores e isonomia da ordem de chegada. Assim manda a lei e estimula nossa percepção ética. Aceitamos tratar de forma desigual atletas pelo peso, nunca querendo que um lutador de 55 kg enfrente um de 120 kg. Aceitamos que não podem se enfrentar porque a isonomia, aqui, seria criminosa.

Como diferentes poderiam ser tratados como iguais? Como podiam lutar entre si se eles são diferentes de forma estrutural? Aceitamos separar a competição por gêneros. Um homem não deve enfrentar uma mulher no judô. Aceitamos que exista uma Olimpíada especial para pessoas especiais. seria injusta a isonomia entre cadeirantes e não cadeirantes num jogo de basquete. Aceitamos de todo lado tratar como diferentes pessoas que apresentam características diferentes. Aceitamos até fast track no EUA: alguém que pagou a mais passa na frente e quebra a lógica da precedência.

Aceitamos desigualdades de toda ordem baseados em variados argumentos: forma física, estado atual, peso, dinheiro etc . Sinto, por todo o mundo, diferenciações variadas e todos aceitando quebras na igualdade. A isonomia é relativizada a cada segundo na nossa sociedade. Porém, quando falamos em cotas na universidade para negros e a quebra desta isonomia em nome de argumentos igualmente sólidos, invocam a isonomia como sagrado e inquebrável. Por que apenas nesta hora este principio deve ser sagrado e inquebrável?

Leandro Karnal

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