A desventuras do “SE”

Aí vocês se conhecem num barzinho da Augusta, ou uma numa balada de quinta, ou na fila do supermercado, ou se esbarram no calçadão. E trocam olhares, telefones, beijos, fluidos, não necessariamente nessa ordem, é válido dizer.

Aí você vai descobrindo aos poucos que ele ou ela tem tanto em comum com você. Aí a vontade de estar juntos outra vez, só aumenta e é recíproca, o que nos dias de hoje é mais difícil que ganhar na mega sena.

Aí a vida fica mais leve, aí você já não dá mais tanta importância irritações pequenas, e se sente de repente ou Super Man, ou a Mulher Maravilha na hora de enfrentar um problema.

Viver fica mais simples, porque o amor te encontrou.

Aí vocês viajam pra Londres, pra Cabo Frio, pro Recife e vão construindo um mosaico de histórias pra se contar.

Aí vocês passam a se comunicar só pelo olhar. É afinidade, cumplicidade e sintonia que não acaba mais.

Mas um dia acaba, e ele ou ela anuncia que vai te trocar por outra garota ou outro rapaz.

Aí o teu chão se abre, aí o teu mundo para de girar. Aí a vida que até então era linda e generosa, vira uma megera asquerosa diariamente disposta a te machucar.

Aí a leveza de outrora dá lugar a um fardo pesado.

O que fazer com os planos em conjunto, com a reserva que vocês fizeram no hotel para passar o aniversário de namoro em Arraial do Cabo? O que fazer com as fotos no mural, regurgitando o futuro que ficou no passado? O que fazer com a lata de leite condensado cozinhando na panela de pressão? A vida seu doce preferido, e absolutamente tudo fazia sentido quando o vazio não preenchia o seu coração. Quando o amanhã era uma certeza irrevogável: vocês felizes para sempre, até o fim. E não essa corda bamba, onde tudo arde e sangra, como se amputassem sem anestesia o teu rim.

Aí você finge pra si mesmo que recomeça. Visita milhares de camas e de aplicativos de encontro e faz a linha ” pegar sem se apegar”. E muda de guarda-roupa, de corte de cabelo, e até de operadora de celular.

Mas dentro de si, nada acontece.

Você sorri da boca da pra fora, mas é o ” e se” que fode tudo, é a possibilidade de toda a história que vocês ainda teriam juntos que te padece.

Aí o amor que te deixou entra pro Guiness, vira mito; que fulana ou sicrano nenhum jamais poderão superar.

Aí você conhece outras pessoas incríveis, mas em todas falta alguma coisa: ou é o beijo que não encaixa, ou é o perfume que não te agrada, ou é o riso estridente, ou o silêncio depois do sexo que te incomoda demais.

Aí você se transforma num zumbi, enchendo a cara em festas, fazendo de conta que segue em frente, mas sempre olhando pra trás.

Para o ” e se” que te acena em cada curva, te perguntando como seria se não tivesse acabado. Onde vocês passariam o próximo Réveillon, será que já teriam se casado? E se vocês ainda estivessem juntos, será que teriam engravidado, ou quem sabe adotado um filhote de maltês? E se a vida não te tivesse te dado essa rasteira, vocês teriam tirado do papel a ideia de entrar no curso de francês, e voarem de asa delta, e morarem uma temporada do Canadá. E se, e se, e se…

A hipótese do que teria sido vira uma faca enfiada na sua jugular.

E se?

Que se dane!

Você nunca irá saber.

Se a história acabou, ela durou o tempo que tinha que ser.

E viver de hipóteses, é se auto-flagelar.

É impedir que outros amores verdadeiros cheguem e façam morada.

Rebobinar o que poderia ser vivido é uma perda de tempo danada.

E não quero com isso dizer que você arrancar o que viveu da sua biografia.

Lembrar de vez quando é natural. O nome disso é nostalgia.

Que não não te impede de se abrir para um novo encontro, uma outra paixão.

Que não te faz permanecer com os olhos vidrados no retrovisor em tempo integral; se anulando, se auto sabotando diariamente.

O ” e se” é um futuro que nunca existiu.

Não seja consigo mesmo tão cruel e hostil.

Viva o presente.

O ” e se” é que fode, tudo, H.G

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Herton Gustavo
Herton Gustavo é publicitário, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e magro nas horas vagas. Acredita no amor, e no poder das dietas japonesas. É solteiro, desde 1986. Tem no currículo dez textos teatrais inéditos. E onze pés na bunda. Na internet alimenta as Fanpage H.G do Rivotril e Herton Gustavo Ao Quadrado. Mas está sempre com fome.



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