É certo que o corpo cresce, envelhece, a alma amadurece, endurece… Tudo endurece: dos joelhos à imaginação.

Adultos protestarão afirmando que ainda imaginam muita coisa. Mas essa “muita coisa” eu afirmo, pela criança que já fui: é menos que muito pouco! Nós adultos imaginamo-nos visitando lugares diferentes, comprando carros equipados, vivendo um romance… Cada um da sua forma mas o “pacote de sonhos” de gente grande geralmente é bem parco e engloba as mesmas coisas.

As crianças não. Elas querem melhorar o mundo para que vivam mais intensamente. Querem poder voar, andar de foguete e conhecer a lua, ter cauda de sereia ou poder correr tão rápido quanto os Guepardos. Querem andar de nave espacial para viver com seres diferentes, mergulhar no infinito sem cair no chão, nadar com tubarões sem medo ou mesmo querem ser os melhores médicos para salvar o mundo…

Quando criança meus pais me levaram ao cinema para assistir o filme do ET do Spielberg. Chorei horas a fio quando acabou o filme. Eu estava inconsolável. Meu pai me chamou ao quintal para procurar a estrelinha do ET. Estava nublado. Pensando rápido, ele entrou no jardim e se escondeu fingindo que era o ET:

-“Não seja bobo papai, o ET não existe” respondi. Por essa ele não esperava, perguntando-me de volta: “Então porque você está chorando se ele não existe?”. Xeque mate: “Exatamente por isso, porque ele não existe”…

Nesse tempo de pensar nas crianças, penso nas crianças que fomos e que, insistentemente sufocamos em prol da dignidade da vida madura. Quando é que dentro desta suposta dignidade adulta, justo quando se pode voar no pensamento, nas técnicas, na poesia e nas conquistas, conseguiremos criar virtualmente, dentro de nós, mundos melhores e mais fantásticos, floridos, estrelados e cheio de gente boa vivendo tudo junto e misturado, sem doenças e soberanias, usando a nossa imaginação infantil de forma madura? Quando é que foi que desaprendemos a usar a nossa imaginação de forma tão rica e começamos a imaginar tão pouco?

Num mundo onde debate-se a igualdade de etnias, os problemas sociais e políticos, bastaria resgatarmo-nos, crianças ainda, puras e genuínas, antes da sociedade nos deformar. Com esse resgate o mundo seria salvo. Rubem Alves dizia que quem não for capaz de abandonar o jeito adulto de ser, não voltando a ver o mundo com olhos de criança jamais seria sábio…

Os adultos veem além da razão. E as crianças veem além tudo o que importa para vivermos melhor. Só elas percebem que poderia existir Nescau que produzisse bolhas de sabão enquanto o tomamos… Seria bom se fôssemos pais de nós mesmos, sem pensar em vestibulares, cáries ou compromissos, protegendo e zelando pela criança nossa de cada dia, que ainda vive e pulsa, com força descomunal, dentro de cada um de nós.

Vamos celebrar as crianças… As que vivem fora da gente e as que vivem na gente. Sim, o tempo passa e tudo endurece. A vida é urgente, não temos tempo a perder! A hora de ser criança é agora…

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.


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