Por Octavio Caruso

Fábulas são fontes de inspiração que vão sendo retrabalhadas ao longo do tempo, “A Bela e a Fera”, escrita por Gabrielle Suzanne Barbot de Villeneuve e publicada em 1740, passou pelas mãos criativas de vários escritores, a história foi sendo moldada, expandida, modificada, mas a essência se manteve. E são eternas exatamente por abordarem temas fundamentais na formação dos alicerces psicológicos do indivíduo. No cinema, duas versões se tornaram inesquecíveis, o maravilhoso clássico em preto e branco dirigido pelo francês Jean Cocteau em 1946 e, adaptada como musical, na animação dos estúdios Disney dirigida por Kirk Wise e Gary Trousdale em 1991.

Os adultos de hoje que viveram aquele momento mágico na infância, cantando a versão brasileira das canções compostas por Alan Menken, Howard Ashman e Tim Rice na escola, a primeira animação a ser indicada para o prêmio de Melhor Filme no Oscar, estão tendo a oportunidade preciosa de compartilhar a experiência emocionante hoje na sala escura com seus filhos pequenos. “A Bela e a Fera”, dirigido por Bill Condon e protagonizado por Emma Watson e Dan Stevens, trata a história com reverência nostálgica, reproduzindo fielmente até os enquadramentos de certas sequências, e, vale ressaltar, com muita ternura. Duas sugestões: Se for levar crianças, prestigie a altíssima competência da equipe de dubladores nacionais e evite o 3D, o recurso prejudica tremendamente a iluminação tão ricamente pensada pelo diretor de fotografia.


Bela (Watson) é uma doce menina que valoriza a literatura, o ato rebelde de buscar cultura em uma época em que a sociedade reduzia a mulher aos afazeres domésticos. Naqueles tomos empoeirados ela viaja para outros mundos, conhece novas possibilidades, compreende que a beleza está na rosa que pede que seu pai (Kevin Kline) traga em todas as suas viagens. Esse gesto aparentemente simples evidencia o traço mais marcante de sua personalidade. As outras damas do local pensam apenas no enfeite que irão utilizar para conquistar a atenção dos bons partidos, maquiagem, vestidos deslumbrantes, elementos artificiais para serem notadas por machistas artificiais, estúpidos como Gaston (Luke Evans), narcisista insensível que toma por capricho a missão de se casar com Bela, a estranha misteriosa que ousa ignorar diariamente seus galanteios.

A simbologia da rosa é importante na trama, as pétalas encantadas que caem dentro do vidro que protege sua pureza do cruel mundo externo, terra de violência, feras, doença e morte. A necessidade de o amor verdadeiro quebrar o encanto antes da queda da última pétala, a resistência poética daqueles que corajosamente enfrentam o embrutecimento da sociedade, cada vez mais interessada no enfeite, desprezando a simplicidade da rosa. Uma atitude preconceituosa do príncipe outrora havia sido a responsável pelo seu castigo. Quem pode amar uma fera? Quem pode olhar nos olhos da dor e sorrir, agradecendo o aprendizado? Tarefa que demanda maturidade, sincera empatia e desapego pelo conceito da vaidade.

Somente Bela, alguém capaz de se apaixonar por letras harmoniosamente unidas no papel, valorizando a inspiração dos escritores, conseguiria enxergar além da imagem, tocando delicadamente o humano gentil por trás da besta, a mãe carinhosa por trás da chaleira (Emma Thompson), o generoso bonachão por trás do relógio (Ian McKellen), o romântico inveterado por trás do candelabro (Ewan McGregor). O retorno à humanidade desses personagens depende da resistência da menina, contra todas as probabilidades, sendo forçada a revisitar memórias tristes, fazendo as pazes com o passado e, num ato de linda generosidade, liberando o angustiado pai da culpa que o atormentava desde o falecimento de sua amada esposa.


A Fera (Stevens) reconhece pela primeira vez o seu antigo reflexo no espelho da vida ao encarar a jovem impetuosa. Ele inicialmente a rejeita, ele já estava se acostumando com sua condição, apreciando a solidão e resignado a eventualmente desaparecer esquecido nas trevas de seu castelo. O relacionamento que se estabelece entre os dois ganha toques ainda mais bonitos nessa nova versão, uma nova canção (“Evermore”) defendida pelo personagem em seu momento mais amargurado agrega camadas de interpretação, a sua tragédia é comum a muitos de nós, a identificação é parte essencial, reconhecer que há beleza até mesmo no amor que não é correspondido, a sua ausência seguirá alimentando sua inspiração. Ele a liberta, com plena consciência das tristes consequências, a esperança vã de seu retorno o manterá são até o último segundo.

Uma história que seguirá se renovando nas próximas gerações, apesar de todo discurso de ódio, fome, medo e catástrofes naturais, um romance que continuará a emocionar pais e filhos no mundo todo, enquanto houver a doce resistência de uma flor que rompe o asfalto.

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Octavio Caruso
Escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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