Por Vinícius de Siqueira

Duas polêmicas entraram no debate público no último mês: a reação de parte da população após ter conhecimento da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte, situada no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), e da apresentação do artista Wagner Schwartz, na estreia da 35º Panorama de arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo.

A reação histérica e bufônica de associações de direita como o Movimento Brasil Livre e seus apoiadores causou estresse na divulgação e na manutenção do Queermuseu no Santander Cultural, o que resultou em seu encerramento no dia 10 de setembro.

A exposição tinha como assunto central a diversidade sexual e trazia obras de autores contemporâneos, mas foi erroneamente vista, principalmente nas redes sociais, como incentivo à pedofilia, zoofilia e blasfêmia.

Já com Schwartz, sua performance foi inspirada no trabalho “Bichos”, de Lygia Clark, em que a arte ultrapassa os limites da superfície do quadro, mas o fato de uma criança ter tocado seu pé enquanto estava nu foi suficiente para falarem que o museu estava incentivando a sexualização precoce de crianças.

Numa perspectiva sociológica, como ambos os acontecimentos se situam na onda conservadora no Brasil? Acredito que Zygmunt Bauman pode ser utilizado para entender a nova forma de se ver a criança na contemporaneidade.

Em seu livro Mal Estar da Pós-Modernidade, de 1997, o autor identifica uma mudança na forma como a criança é concebida na dita pós-modernidade. segundo Bauman, a criança deixou de ser um animal pulsional, sujeito sexual, portanto, concebido a partir da psicanálise freudiana como alguém que está próximo de cometer infrações sociais exatamente por não estar ainda adequado às regras vigentes, e se transformou em um objeto sexual, atravessado pelo desejo do outro.

O outro, na visão de Bauman, normalmente é aquele que vai dar razão para a expressão da sexualidade na criança. Ou seja, no período anterior ao que chamamos de pós-modernidade (que, como marco simbólico, temos o maio de 68 como ponto de partida) a criança era vista como sujeito sexual, pois detinha pulsões sexual que não precisaram de ninguém mais além dela própria para aparecerem. A criança era concebida como um animal pulsional e, portanto, sexual. A mudança que acontece na dita pós-modernidade tem a ver com um esvaziamento da sexualidade da criança, já que suas expressões sexuais são sempre fruto do desejo do outro.

Devemos entender o desejo do outro de um jeito bem claro: para a visão contemporânea da criança enquanto objeto sexual, a expressão de sua sexualidade se dá a partir de abusos que ela tenha sofrido, de situações traumáticas a que elas foram brutalmente submetidas. A banalização da pedofilia, segundo Bauman, é um resultado disso.

A expressão da sexualidade na criança, quando ela é concebida como objeto sexual, fica ligada justamente à pedofilia, ao abuso dos pais. Segundo Bauman, “a ternura dos pais perdeu sua inocência. Fora levada a público a consciência de que as crianças são sempre e em toda parte objetos sexuais, de que há um fundo sexual potencialmente explosivo em qualquer ato de amor dos pais, de que toda carícia tem seu aspecto erótico e em todo gesto de amor pode esconder-se um assédio sexual”.

O sociólogo também entende que o sexo tem papel central na formação do restante das relações sociais. Enquanto sujeito sexual, a sexualidade funciona como agregação de sujeitos, como controle forte e união física, como objeto sexual, a desregulamentação e atomização são regra, o que encaixa com sua visão da pós-modernidade como uma época de liquidez das relações sociais.

“No discurso dos nossos dias, a criança aparece como o objeto, em vez de sujeito, do desejo sexual. Se o lançamento da criança no molde do sujeito sexual justificava a proteção compreensiva e íntima dos pais, a criança como objeto sexual requer reticência, distância e reserva emocional dos pais. O primeiro fato serviu ao fortalecimento (alguns diriam: estreitamento) dos laços familiares […] o segundo serve ao enfraquecimento dos laços, uma condição importante da ‘monadização’ do futuro colecionador de sensações de consumidor de impressões”, afirma Bauman.

Primeiramente, é possível concluir uma coisa inesperada: a atual onda conservadora no Brasil tem como base as relações sociais pós-modernas. Desta forma, as condições materiais de emergência da onda conservadora que faz da criança um objeto sexual são as mesmas da emergência do Queermuseu. A diferença é que a onda conservadora pretende manter as instituições dominantes e reelaborar o sistema de valores dessas instituições para as novas formas de relação da contemporaneidade.

A segunda conclusão possível é: sem excluir a primeira conclusão, o que se percebe é o uso da criança como objeto sexual e como objeto estratégico. A criança, enquanto objeto sexual, é também a representação do objeto inanimado. Em Freud, é justamente a pulsão sexual que move cada animal, a falta disso torna todas as crianças em bonecos e, como bonecos, precisam ser manipuladas, no sentido mais puro da palavra.

Então, em seu duplo movimento desonesto e sem caráter, parte do campo político da direita brasileira reescreve a função da infância, refaz as relações das crianças com os adultos, diminui sua autonomia desejante e, de quebra, após este esvaziamento, manipulam seus corpos e a opinião pública para entenderem que a naturalidade pulsional de um corpo selvagem em processo de civilidade é, na verdade, uma invenção da esquerda brasileira.

Vinicius Siqueira
Formado em sociopsicologia e editor do Colunas Tortas.

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