O complexo armênio: quando um genocídio é genocídio?

Mais de 20 países consideram o massacre dos armênios oficialmente genocídio. Papa Francisco chamou a tragédia de “o primeiro genocídio do século 20”. Para os alemães, porém, a palavra ainda é tabu. Isso pode mudar hoje hoje.

Crianças armênias resgatadas dos turcos em 1915, esperando distribuição de comida

Quando políticos em Berlim falam sobre o destino de centenas de milhares de armênios que foram deportados, assassinados ou simplesmente morreram de fome entre 1915 e 1923, a precisão na escolha das palavras tem um peso importante. O termo genocício foi utilizado por muito poucos parlamentares até agora. A posição oficial do governo alemão foi a de lamentar o occorrido, mas a palavra genocídio nunca foi mencionada – nem verbalmente, muito menos no papel. O termo era tabu, mas isso está mudando. A chanceler federal Angela Merkel já o proferiu e até mesmo afinou a escolha de palavras com o presidente alemão, Joachim Gauck. Foi uma verdadeira sensação, em abril de 2015, por ocasião dos 100 anos do massacre dos armênios. A reconsideração da terminologia para esse história de horror demorou a chegar.

Motivos para morderação existem há décadas. O Partido Social Democrata (SPD), bastante enraizado entre a população de origem turca na Alemanha, teme perder votos se o genocídio dos armênios, algo indiscutível entre renomados historiadores em todo o mundo, passar a ser a posição oficial do governo alemão. Genocídio dos armênios é a interpretação oficial em mais de 20 países, incluindo França e Suíça.

Mas a Alemanha tem problemas com a palavra. Em suma: há tempos que Berlim vem se movimentando com muito cuidado sobre um terreno diplomático minado. Não se queria estragar a relação com a Turquia, membro da Otan. O mesmo vale para o relacionamento com os mais de 2 milhões de turcos que vivem na Alemanha. E há ainda o envolvimento alemão na catástrofe dos armênios, que pode ser passível de pagamentos de reparações.

Genocídio marca identidade dos armênios

Império Otomano

Há fortes indícios de que o destino dos armênios já havia sido selado em 1914. Naquele ano, o Exército otomano sofreu uma derrota avassaladora contra as tropas russas. Estima-se que entre 50 mil e 80 mil turcos tenham morrido na campanha de inverno mal preparada. A Batalha de Sarikamis é considerada o estopim do genocídio.
Os turcos responsabilizaram os armênios pela derrota, afirmando que eles lutaram ao lado dos russos ou combateram os otomanos em ações de guerrilha. Para os turcos, os armênios trabalharam clandestinamente a favor dos russos, cujo objetivo na época seria estabelecer uma Armênia que se estendesse até a costa do Mediterrâneo como estado-tampão. A intenção seria ganhar acesso direto para o mar a partir do Cáucaso. Essa é a versão que se pode ler até hoje em livros escolares turcos.

No início do século 20, os armênios viviam principalmente no leste do Império Otomano. Como cristãos, eles representavam o maior grupo étnico-religioso em algumas regiões. No entanto, não havia um território ou um Estado exclusivamente armênio. O nacionalismo que emergiu no século 19 e 20 era menos pronunciado entre os armênios do que em outros grupos étnicos que queriam liberta-se do jugo do sultão.

“Em geral, a elite armênia defendia a unidade do Império Otomano. No entanto, num Estado moderno e organizado de forma pluralista”, diz a historiadora berlinense Elke Hartmann, especialista em Oriente Médio.

No entanto, o decadente Império Otomano culminou num Estado nacional turco, em detrimento da variedade de etnias. Isso significa que o surgimento da moderna república turca teve início com o genocídio dos armênios.

No final de abril de 1915, a ação “Envios” se estendeu por toda a Anatólia. Um termo aparentemente inofensivo do mundo dos funcionários e administradores não significava nada mais do que deportação. Intelectuais, políticos e religiosos armênios foram deportados sistematicamente por Constantinopla, a antiga capital otomana, para a Anatólia, onde foram assassinados.

A base legal para tal foi uma lei aprovada posteriormente, em 27 de maio de 1915, tendo como pretexto a afirmação de que os armênios planejavam uma rebelião em âmbito nacional. As “novas áreas de assentamento” previstas para os armênios eram o deserto da Síria e a Mesopotâmia – regiões inóspitas que não ofereciam nenhum meio de subsistência.
“Eles são levados para o deserto. E para lhes retirar as últimas forças, são forçados a caminhar dias em círculos”, consta nos registros de uma testemunha da época. Na ocasião, foram mortos entre 300 mil e 1,5 milhão de armênios.

Ajuda do Império Alemão

Nenhum outro Estado esteve tão envolvido no destino dos armênios quanto o Império Alemão – por motivos econômicos e estratégicos. Em 7 de julho de 1915, o barão Hans Freiherrvon Wangenheim, então embaixador alemão em Constantinopla, enviou um telegrama ao chanceler do Império em Berlim Theobald von Bethmann-Hollweg. “As circunstâncias e a forma como está sendo feito o reassentamento mostram que o governo persegue, de fato, o objetivo de extinguir a raça armênia no Império Otomano”, escreveu.

Os alemães foram importantes aliados do Império Otomano, fornecendo armas e enviando especialistas militares. Eles tinham interesses no Bósforo. A construção da Ferrovia Berlim-Bagdá, um projeto tão importante quanto o Programa Apollo dos americanos na década de 1960, serviu como principal instrumento na luta contra os britânicos no Oriente.
Documentos comprovam que, através dos inúmeros consulados no Império Otomano, Berlim foi informado sobre todos os detalhes das marchas da morte dos armênios. Entre esses documentos, está uma das muitas cartas à chancelaria imperial descrevendo os assassinatos praticados pelos turcos: “Nosso único objetivo é manter a Turquia como aliada até o fim da guerra, independente do aniquilamento ou não dos armênios.”

Controvérsia sobre a classificação de um crime histórico

Apesar disso, até agora, a Alemanha esteve entre os países, que, como os EUA e Israel, não classificaram o massacre como genocídio. O político social-democrata Markus Meckel diz considerar a posição alemã um escândalo. Por ocasião dos 90 anos do massacre, há dez anos, o Bundestag desculpou-se em declaração conjunta pelo “papel inglório” da Alemanha na época.

No entanto, não se falou numa cumplicidade real. O conceito central de genocídio não aparece no documento. Joschka Fischer, do Partido Verde, que na ocasião era ministro alemão do Exterior, usou seu poder de veto para que isso fosse impedido. “Isso não vai entrar” foi seu veredicto após longas negociações.

A repentina mudança de atitude por parte de Berlim chega a tempo do 100° aniversário do massacre. No entanto, enquanto a França estará representada por seu presidente, François Hollande, a Alemanha enviará somente uma pequena delegação para a cerimônia em Yerevan, capital da Armênia.

TEXTO DEVolker Wagener
FONTEWD.COM
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