Aquilo que nos pertence

Duas grandes correntes costuram a vida dos homens: o determinismo e o livre arbítrio.

Os primeiros, os deterministas, dizem que existe uma força superior que nos guia, favorece, seduz, pune, e leva pelos caminhos da escuridão ou da luz. Alguns defendem que essa força é o destino, um percurso pré-determinado, e a nossa missão em vida é cumpri-lo, sucumbir sob o peso dos eventos cotidianos. Outros chamam essa força de Deus ou Diabo, conforme os nossos passos se aproximam do bem ou do mal. E os que defendem a reencarnação, afirmam que nós escolhemos a nossa vida atual, e se estamos vivendo maus momentos, isso é um aprendizado para evoluirmos, e resultado de opções que fizemos antes do nosso nascimento. Em resumo: a nossa vida já está, de certo modo, escrita.
Já os segundos, os que defendem o livre arbítrio, não acreditam no destino, nem pensam que há forças que interferem nas escolhas dos homens. Dizem que o destino nasce da força de vontade, da garra de dobrar os dias e a vida, da tenacidade em contornar os obstáculos. Não acreditam em coincidências ou sorte. Enfatizam que a vida se constrói com o trabalho, a inteligência, a argúcia de viver, e é o resultado do livre arbítrio, das escolhas que cada um faz no dia a dia.
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É difícil saber até que ponto essas crenças iniciais, no determinismo ou no livre arbítrio, moldam a nossa vida. Elas são formas de ver o mundo e ninguém sabe em que medida são realmente capazes de alterar rumos ou interferir nos acontecimentos.


Mas todos nós já nos deparamos com situações difíceis de explicar: situações em que séries de coincidências contribuem para um determinado evento. E o que parece certo é que, mesmo nas circunstâncias mais improváveis, ou mais árduas, aquilo que nos pertence acaba se tornando nosso. Aquilo que tem que acontecer encontra uma forma de se tornar real, – um pouco como as águas dos rios seguindo um percurso inevitável para o mar, sem que nada possa impedi-las.
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Muitas vezes não se sabe como se chegou a um lugar ou acontecimento, mas quando olhamos para trás podemos reconhecer que aquele caminho sinuoso que percorremos, as dificuldades que passamos e todas as coisas que deram errado, eram somente uma forma para que, no final, tudo desse certo.

O filósofo alemão Soren Kierkegaard (1813-1855) afirmava que a vida “só pode ser vivida, olhando-se para a frente, mas só pode ser compreendida olhando-se para trás”. Isto é, para viver é preciso fixar-se no futuro, ter esperanças no que virá, mas para entender e explicar o momento presente é necessário analisar o passado.
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Exatamente sobre isto Steve Jobs (1955-2011) dizia que “você não consegue ligar os pontos olhando para diante; você só consegue ligá-los olhando para trás. Então, você tem que confiar que os pontos se ligarão algum dia, no futuro. Você tem que confiar em algo – o seu instinto, destino, vida, karma, o que for. Esta abordagem nunca me desapontou, e fez toda diferença na minha vida.”

Por isso, tudo o que é sofrido, confuso e inexplicável, talvez porque não corresponde aos nossos desejos atuais, um dia terá logica e será o melhor para nós. É preciso confiar num desfecho razoável, num futuro aceitável ainda que desconhecido. Independente de se acreditar no destino, em forças divinas ou no livre arbítrio, e mesmo que nada faça sentido hoje, no futuro tudo terá uma explicação, uma razão.
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I. M. Martins
Antropóloga, nascida em África, viveu em vários continentes. Começou a escrever aos doze anos. As viagens e a antropologia refletem-se na sua escrita e na incapacidade de fixar-se em uma só cultura. O primeiro romance, publicado em 2014 (Cia das Letras), é uma trilogia de ficção e fantasia – O Mosteiro (vol.I), O Tibetano (vol.II) e o Dragão (vol.III). A segunda publicação, inspirada em uma experiência pessoal, aborda os relacionamentos: Como ser Amiga da Ex do seu marido (Matrix, 2015).



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