Palavras não amam ninguém

E é assim desde que o mundo é mundo. Não vem que não tem.
Foi-se o tempo que o amor e o pudor ocupavam a mesmo assento no vagão. Hoje em dia, fala-se em amor no elevador, na academia, na fila do pão.
Beijo, amiga! Te amo!
Qualquer coisa dá um grito. Te amo, irmão.
E em tempos de redes sociais, whats app e tudo mais, aí então nem se fala: o amor ficou mais popular que nota de dois reais.
Virou o novo bom dia. E diga-se de passagem aquele tipo de bom dia que você dá sem olhar dentro dos olhos. Um bom dia mais genérico, um bom dia coletivo.


É muito simples: basta digitar no grupo:
“Amo todos vocês, gostosuras! ” E está feito o serviço.
E antes que alguém me taxe de recalcado, azedo, mal amado ou qualquer coisa do tipo, e me pergunte: o que há de errado nisso, em compartilhar bons sentimentos, hastag good vibes, que mal pode haver em falar de amor o tempo todo, se amor é um sentimento que nos faz tão bem?
E eu te respondo: Mal nenhum. O amor é um sentimento que nunca está de barriga cheia, pelo contrário: tem a fome de cem em jejum e se alimentar de amor, faz sempre muito bem.
Mas que fique claro: quem ama todo mundo, não ama ninguém.
Amor é muito mais que discurso, que panfleto, que firula, que troca de gentileza.
Amor é poder contar com o outro, na alegria e na tristeza.
Dos tantos que te dizem, eu te amo, como quem diz: sabe onde fica as Casas Bahia? Com quantos deles você pode realmente contar? Quando a barriga doer, quando a solidão bater, quando a febre chegar? Dos tantos pra quem você diz, eu te amo, como quem passa manteiga no pão, pra quantos você está realmente disposto a abrir sua casa, sua vida, seu coração?

Por que amor desde que me entendo por gente, é simplesmente entrega.
Ainda que seja um sentimento livre, belo e potente justamente por não ter regras, sinto muito dizer, mas sem nenhuma exceção: amor não é discurso, é ação.
Portanto antes de sair dizendo eu te amo a torto e direito, repense se é isso mesmo o sensato a se dizer.
Talvez você curta, goste, considere a pessoa muito divertida, mas será que isso é ponto de partida pra dizer: eu amo você?
Talvez haja afinidade em tantos assuntos, e na balada não há companhia melhor do que essa colega querida, companheira de bebida, que fecha contigo e dança até o chão; mas será que isso é suficiente pra ela te dizer eu amo, com a mesma naturalidade que diz: amo caipirinha de limão?
Sinceramente, amor é coisa séria, e não convém banalizá-lo para o bem de todos os envolvidos.
Dizer eu te amo da boca pra fora, é como dizer: eu te amo, mas não conte comigo.
Eu te amo, mas quando precisar não me ligue.
Eu te amo, mas posso mudar de ideia, como quem muda de roupa, e não amar mais você.
Eu te amo, mas seu namorado é uma delícia. Aconteceu. O que é eu posso fazer?
Eu te amo, mas infelizmente não posso fazer nada pra te ajudar.
Eu te amo, mas tô sem tempo pra te ouvir.

Eu te amo, mas não me leve a mal, dinheiro eu não gosto de emprestar.
Eu amo todos vocês, delícias cremosas desse grupo, vontade de abraçar todo mundo e nunca mais soltar. Agora suas delícias, vão se ferrar!
E de repente o amor esse sentimento tão precioso, vira mimimi, conversa fiada, nhenhenhém.
E a responsabilidade é sua que ajudou a banalizá-lo.
Não tem segredo, meu caro: quem ama todo mundo, não ama ninguém.

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Herton Gustavo
Herton Gustavo é publicitário, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e magro nas horas vagas. Acredita no amor, e no poder das dietas japonesas. É solteiro, desde 1986. Tem no currículo dez textos teatrais inéditos. E onze pés na bunda. Na internet alimenta as Fanpage H.G do Rivotril e Herton Gustavo Ao Quadrado. Mas está sempre com fome.



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