Abnader Domingues – Personalidade Musical de Ituiutaba (MG)

1988 foi o ano que iniciei minha busca por música e pela primeira vez tentei operar o
aparelho de som. O alvo era a coleção de LPs de obras dos grandes compositores clássicos de meu pai. Entre Bach, Mozart, Beethoven e Tchaikovsky, eu escolhi o som de piano da autêntica obra de Frédéric Chopin. Identificação!

1998 foi o ano em que conheci esse som ao vivo, tocado especialmente e exclusivamente para minha pessoa, através de meu amigo Abnader Domingues. Na ocasião, éramos calouros (inseparáveis) dos cursos de Música da Federal de Uberlândia. Praticamente os únicos “malucos” daquela turma a optar pelo Bacharelado em Instrumento.

Nosso contato foi tão intenso e inovador, que até no horário de almoço estávamos juntos, falando e fazendo música, cada um apresentando o seu universo artístico com paixão e solidariedade. Uma troca pura e gratuita, brotando uma amizade cristalina, um verdadeiro presente da deusa música!

A sua identificação com a obra de Frédéric Chopin é tamanha, a ponto de nomear o seu primogênito de Frederick. Abaixo, a interpretação chopiniana de Abnader.

Leveza é o seu ponto de partida em Chopin. As primeiras notas são altivas, em tom maior, alegre, mas tomaremos um certo cuidado para não confundirmos alegria com euforia, pois este ambiente vibra em extrema delicadeza. Impressionante como Abnader consegue equilíbrio em sua maneira tão intimista de lidar com a linguagem romântica. Seus rubatos e retardos são sutis e maduros, criando uma atmosfera de fluidez agógica. A dinâmica digna de um grande pianista. Ao iniciar um pianíssimo, executa com tanta delicadeza que faz pensar que as pesadas teclas do instrumento sejam leves, verdadeiras plumas sonoras em nossa alma. Isso é para poucos, plateia pequena em número, porém, próxima e grandiosa em coração e presença física, da maneira como o nosso intérprete se sente mais a vontade em Chopin, seu grande ídolo.

AbmerMeu amigo era tão generoso que tocava trechos de peças que estava preparando e me trazia explicações, verdadeiras análises que fazia para interpretá-las. O mais interessante de suas colocações, era a pessoalidade, suas próprias percepções. O cara não se limitava em reproduzir o que aprendia com seus mestres, eram posições muito pessoais de cada motivo, tema ou seção apresentada, e desse modo, pude aprender muito sobre interpretação com o meu amigo.

Em pouco tempo, fiz questão de aproximar Abnader ao distinto pianista Rodrigo Ribeiro, nosso veterano em graduação, podendo então, presenciar um grande encontro que permeou nossa vida acadêmica. Rodrigo era fanático por tudo de música e tinha um imenso arquivo em VHS, onde podemos conhecer, aprender e motivar nossa graduação em música (clássica).

O dedicado Abnader, no primeiro período de piano foi matriculado com um sábio professor, na época menos focado em performance pianística , que ao perceber o talento de seu aluno, logo direcionou-o a estudar com a conceituada concertista Araceli Chacon, efetiva da área naquele tempo.

Abaixo, a interpretação de Abnader na distinta Valsa da dor do maestro Villa-Lobos, outro autor de grande impacto em sua vida e que inspira o nome de seu segundo filhote, o Heitor!

 

Preste bastante atenção na mão esquerda de Abnader, aquela que conduz a dor. Ela determina cada parte da obra, seus contrastes dinâmicos e raríssimo momento de alegria. Villa-Lobos é o compositor dos contrastes. Hora sua escrita sinfônica, hora idiomática. Abnader consegue mostrar a massa “sinfônica” sem titubear as delicadas notas da linha melódica. Quando o contraste aparece, vem sem arranhar o ouvido, quase que anunciadamente, na estreita linha entre o susto e o preambulo de algo intenso que surge no ar. A obra é tão profunda que não se pode ouvir em volume baixo. O pianíssimo é quase imperceptível, o forte rui a quase aparente serenidade da peça, e é justamente neste momento que desequilibra o ouvinte. Quando acaba o contraste, a melancólica melodia inicial nos traz de volta uma dor prazerosa e amena.

Éramos jovens, cheios de entusiasmo e queríamos mudar a sociedade através da música! Queríamos ser como nosso ídolo Beethoven, que dizia em sua revolucionária frase: “Chega dessa música de entretenimento, o ser humano pode transformar a vida através da profundidade da arte…”

Enquanto os alunos da federal se envolviam em política, DCE, manifestações, greve, a gente “pichava” as dependências do campus Santa Mônica com o nosso precioso lema: “Som para todos!”

E o meu amigo conseguiu sim transformar a vida, tanto dele, como de sua família e de seus ouvintes, alunos e colegas. Expandiu seu conhecimento musical e em 2003 criou o Solemnis, conjunto musical que atua em diversos eventos sociais, especialmente em cerimônias matrimoniais. Piano, violino, saxofone, trompete e as vozes masculina e feminina para uma grande referência musical no pontal do triangulo mineiro.

Em 2000, ano em que Abnader retorna ao Conservatório Estadual de Música de Ituiutaba – Dr. José Zóccoli de Andrade, agora, como professor da área de piano, também assume grande responsabilidade na produção e coordenação do Concurso Nacional de Piano promovido pela instituição. Hoje, oficialmente, coordenador geral e artístico.

Este reconhecido concurso é realizado desde 1994 e neste ano marca a 23ª edição deste importante evento nacional que oportuniza e valoriza a arte de tradição erudita, e homenageia os grandes compositores brasileiros em atividade. A professora doutora Denise Martins, ex-diretora do conservatório, é uma das idealizadoras do projeto e grande pilar de sustentação do concurso. Segundo Abnader, uma pessoa de distinta humanidade e visionária, aquela personalidade que dá vida ao espaço.

Entre os gigantes homenageados e colaboradores do evento, podemos destacar alguns como Almeida Prado, Ronaldo Miranda, Heitor Alimonda, Eudóxia de Barros, Oswaldo Lacerda, o uberlandense Calimério Soares e o goiano, professor doutor Estércio Marquez Cunha, compositor homenageado, que também foi juri deste importante concurso por praticamente 20 anos. Abaixo, Abnader interpreta obra de Estércio Marques Cunha.

Abaixo, Abnader interpreta obra de Calimério Soares, compositor uberlandense.

Em 2015 o Conservatório de Música de Ituiutaba completou 50 anos de sua fundação, pela determinada professora Guaraciaba Silvia Campos, mãe do professor doutor André Campos da UFU, importante formador de violonistas em Uberlândia. A atual diretora é a empenhada professora Silvia Rubia.

Ainda em 2015, Abnader Domingues recebeu o título de Prêmio Mérito Cultural Em Música Guaraciaba Silvia Campos, outorgado pela ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.

Abnader Domingues e Conservatório de Música de Ituiutaba se fundem! Abaixo o vídeo de uma de suas participações na comemoração de 50 anos da escola, tocando piano no calçadão da importante cidade mineira, a terra dos tijucanos!

E, para encerrar, palavras de Abnader Domingues: “A instituição fez aflorar a sensibilidade e potencial artístico do menino, que nasceu ouvindo boa música, estimulado pela carinhosa mãe, que nutria pelo filho mais novo, grande afetividade. É do berço a vocação para o belo…o amor incondicional….a sensibilidade…”

COMPARTILHAR
Graciano Arantes
Prof. Graciano Arantes é bacharel em Música pela Federal de Uberlândia, sua cidade natal e radicou-se em Goiânia há 10 anos, onde desenvolveu seu método intitulado O Violão Em Roda!Contato: [email protected]



COMENTÁRIOS