Sobre a arte que habita em nós

Dizia Nietzsche que a arte existe para que nós possamos suportar a realidade.

Embora tenha sido incapaz de aprender a tocar qualquer instrumento, tenha parado com minhas pinturas e com minhas aulas de dança há muito tempo, sei que a arte vive em mim. A própria capacidade de me comover diante dela é uma prova disso. Certa vez entrei num museu com uma amiga querida. Ficamos em silêncio o tempo todo em que estivemos admirando as artes que se exibiam para nós. Ao sairmos de lá ela me disse “sinto-me abastecida”. Pois é isso mesmo, o corpo da gente pede por beleza o tempo todo e nos esquecemos de alimentá-lo.

Comida é combustível para a matéria. A beleza é combustível para a alma.
Não existe casamento bem sucedido sem amor. Não existe jardim que cresça sem cuidados. Não existe pianista que toque sem treino. E não existe ser humano que desperte sua essência mais profunda sem que sua alma seja nutrida. Isso é invisivelmente óbvio.

A alma faminta padece o pensamento. E o pensamento ruim padece o corpo.

Acredito realmente que dentro de cada um de nós há uma alma que pulsa pedindo por beleza. Rubem Alves dizia que nossos corpos são sonhos encarnados. Ele está certo! Somos os desejos e o imaginário que moram em nos. Mas atrevo-me (com todo respeito) a dizer que somos mais do que isso… Somos obras de arte encarnadas! Nossa alma busca beleza e fazemos arte justamente para alimentá-la!

Tudo pode ser arte: a ciência, a tecnologia, a medicina, a jardinagem, a engenharia, a contrução de telescópios… Se o que te move a construir e projetar a sua vida busca melhorar a vida de todos, você está fazendo arte! Pois não é exatamente isso que Nietzsche afirmou? Que a arte existe para tornar o real suportável? Ao promovermos isso, fazemos de nós obras de arte encarnadas…

Michelângelo de uma pedra bruta fez nascer a Pietá. Fico imaginando ele olhando para o bloco maciço gigante de pedra e tirando todos os excessos para que sua escultura nascesse. Ele só conseguiu nos trazer a Pietá porque ela nasceu primeiro dentro dele, para depois nascer na pedra.

Einstein só passou anos desbravando a Teoria da Relatividade porque antes de todos seus estudos havia uma sementinha dela plantada dentro dele. Beethoven compôs a Nona Sinfonia completamente surdo. Isso pouco importava, ela nasceu dentro dele e seu trabalho foi transcrevê-la em notas.Estou me referindo a gênios da humanidade, pois busquei exemplos que todos conhecessem. Porém todos nós temos igualmente almas que esperam pela beleza.

A grande diferença entre alguns ditos gênios e nós é que eles se alimentaram do invisível, se alimentaram da linguagem falada pela alma. Inaudível. Música que se toca em silêncio profundo.

Que se faça da carne e do desejo obra de arte pura. E o mundo se tornará uma imensa ciranda de beleza onde a alma humana sorrirá feliz. E nós poderemos gozar da grandiosidade que vive dentro de nós.

Fotografia de Anne O.

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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