“A burocracia” (que talvez mereça ser escrita com dois “erres”) por Galeano

“Sixto Martinez cumpriu serviço militar num quartel de Sevilha.

No meio da parada havia um banquinho. Junto do banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia por que motivo era necessário guardar o banquinho. A guarda fazia-se porque se fazia, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados a obedeciam. Nunca ninguém duvidou, nunca ninguém perguntou. Se assim se fazia, e sempre se havia feito, por algum motivo seria.

E assim continuou a ser, até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis saber a ordem original. Tiveram que revolver a fundo os arquivos. E depois de muito procurar, ficou a saber-se – Trinta e três anos, dois meses e quatro dias atrás, um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que estava recém-pintado, para que não acontecesse alguém sentar-se sobre a tinta fresca.”

Eduardo Galeano

No “Livro dos Abraços”

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