Foto: Lucas Bori

Há muito as mulheres eram sempre referidas como “a filha do”, “a esposa do”, “a mãe do”… Não possuiam autonomia e não eram lembradas por sua personalidade ou por seus atributos, mas por serem “a (mulher, filha, mãe) do”.

Ontem, em seu perfil no Facebook, a cantora Clarice Falcão falou um pouco sobre isso, mostrando-se insatisfeita por sempre ser mencionada como a “ex de Gregorio Duvivier.
Muito pertinente a fala de Clarice:

“Um dia eu casei com um cara.

Não foi agora.

Não foi recentemente.

Não foi na igreja – aos olhos da minha avó, sequer foi casamento.

Não foi ruim.

Não foi perfeito.

Foi há oito anos atrás – período de tempo em que dá pra gente entender que não foi ruim mas não foi perfeito.
Foi um casamento consensual – ou seja, a outra parte estava de acordo em casar comigo.

Desde então, eu fiz muitas coisas além de casar. Fiz dois álbuns de estúdio. Fui indicada ao grammy latino. Rodei o Brasil com duas turnês. Fiz shows lotados. Fiz shows vazios. Fiz shows que não estavam lotados mas também não estavam vazios. Fiz videoclipes. Fiz longa-metragens. Fiz um especial pra Netflix. Redigi vários tuítes sobre assuntos diversos que não fizeram diferença alguma – nem no mundo, nem na minha vida – mas que vou continuar redigindo pois tédio. Fiz seriados. Usei pochete no shopping. Mas, pode procurar nos jornais, nas revistas e na internet, esses fatos todos têm um denominador comum: um dia eu casei com um cara. Essa informação parece de extrema relevância pra que se noticie sobre qualquer informação relacionada à minha pessoa. Um lembrete indispensável. “aliás, já que estamos no assunto de pochetes, um dia ela casou com um cara”.

Por outro lado, não parece uma informação muito relevante no que diz respeito ao cara. O cara casou, mas isso definitivamente não faz parte do que torna ele “o cara”. Só se e quando ele quiser. Ele controla a narrativa dele e esse é um direito que ninguém nunca me ofereceu.

Outro dia, fui chamada de “manic pixie dream girl brasileira” por um artigo com o objetivo de combater o machismo.
Eu não sou uma manic pixie dream girl. Sou uma pessoa. Tenho uma vida que vai de acordo com os meus próprios interesses. Acordo quando preciso acordar (quando não preciso, não acordo), tenho que ligar a bomba se quero tomar banho (a pressão da água aqui em casa não é legal), componho se quero fazer um CD, viajo se tenho que fazer show, coloco o copo no filtro se quero tomar um copo d’água daqui a 15 minutos (falei que a pressão de água aqui não é legal), saio de noite e fico bêbada, acordo culpada porque fiquei bêbada, levo esporro porque assaltei a geladeira e comi a comida do amigo que mora comigo quando fiquei bêbada, trabalho, trabalho muito, trabalho mais se tô precisando de dinheiro, fico mal-humorada quando tenho que trabalhar mais, decido que vou trabalhar menos, fico culpada quando começo a trabalhar menos e, o que é esquisito pra uma pessoa como eu que tende a ver o copo meio vazio (a pressão de água aqui é horrível!) estou cada vez mais feliz com a irmã e a amiga e a filha e a profissional que eu sou e, PRINCIPALMENTE, não sou e nunca serei definida por ter um dia casado com um cara.

Acho importantíssimo acabarmos com a representação da manic pixie dream girl no cinema. É um papel que muita atriz já teve que fazer (eu inclusive) e queremos mais do que isso. Queremos protagonistas complexas ou heroínas com sangue nos olhos ou uma mulher normal que vive uma vida normal pra gente assistir e pensar “eita, olha eu”. Mas acho igualmente importante acabarmos com a manicpixiedreamgirlarização da vida real. Não somos ex-mulher de não-sei-quem. Não somos a atual namorada. Não somos o possível affair. Somos nós. As nossas próprias eternas mulheres de nós mesmas.”

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