Nada deve nos afastar do livre arbítrio, tampouco do nosso pensamento

Meu pai, teólogo e precursor da Teologia da Libertação no Protestantismo foi perseguido Brasil afora na época da ditadura militar por ter cometido o crime supremo das religiões ortodoxas: ele pensou diferente, pensou livre.
Nasci em família protestante não praticante. Meu pai ainda pregava em pequenas comunidades quando eu era criança. Mais pelo prazer do que qualquer outra coisa. Nunca ouvi dele qualquer comentário do tipo “servir a Deus” ou “obrigação”. Era porque falar das belezas de Deus era desejo íntimo da sua alma. E isso o fez mais querido pelo mundo que muitos que fizeram da religião um dever a ser cumprido.

De acordo com o álbum de retratos eu tive um batizado em casa. Criança de colo, vestidinho vermelho, maria chiquinhas cacheadas. Meus irmãos vestiam calças boca de sino que não combinavam com a camiseta, em frente a lareira da sala de visitas. Isso é tudo que sei sobre meu batizado. Nem sei quem foram meus padrinhos. Ortodoxia nunca foi uma palavra que se aplicou às questões religiosas da minha família.

Anos depois assisti o meu pai rompendo definitivamente com a igreja para poder se entregar efetivamente ao direito de pensar, amar e sentir Deus sem rótulo algum. Nunca mais fomos a igreja alguma. E eu no começo da minha vida adulta tinha o prazer de anunciar que era atéia. Pois não estar ligada a religião alguma e nem a espiritualidade era uma forma entendida por mim como a única admissível para ser livre pensante.

Esse ateímo falso começou a me corroer por dentro. Uma angústia branda de me sentir incompleta e desconexa com o mundo me acompanhou por anos, até que meus passos me levaram a um caminho que me preencheu. A minha religião não importa. Até porque ela é apenas uma base para a minha visão de espiritualidade que é em si uma amplitude de horizontes enorme. A questão é que eu comecei a pensar melhor depois desses tempos. Aliás, perdi o medo de pensar por mim mesma. Não é porque tenho uma religião que preciso pensar apenas dentro dos limites dela. Posso ir muito além. Assim como tudo na vida, podemos ir além. E não há nada de errado ou subversivo nisso.

Acontece que em geral as instituições religiosas são entidades que não ensinam a pensar, mas a obedecer um padrão. Me assusta o quanto a visão ortodoxa de algumas religiões, destruidoras da liberdade de pensamento, ficou impregnada na sabedoria ancestral da humanidade. Algumas das melhores pessoas que conheço são atéias acredito que por instinto de sobrevivência, afinal perder seu livre arbítrio não é lá coisa de gente inteligente. Muitas pessoas fazem questão de se manter no ceticismo pois ele de alguma forma as mantém ligadas ao pensamento. Fico feliz, afinal o nosso pensamento é o bem maior que temos.

Religião deveria ser uma forma de falar sobre a vida e sentir o pulsar da nossa alma. Como um tempero que se oferece para se degustar a comida melhor e com prazer. Qualquer coisa que vá além disso, é demais.

No entanto, algumas religiões hoje em dia falam sobre a vida prática das pessoas, que angustiadas com as mazelas do dia a dia já nem sabem mais como dar o próximo passo. E aí surgem soluções milagrosas de emprego, dinheiro e casamento em troca de algumas coisas. E a primeira delas é a sua reorganização mental para que elas parem de pensar livremente e passem a pensar mecanicamente. É como um cinema 3D. Quem entra fica completamente mergulhado no mundo artificial em que está sendo oferecido. De certa forma, oferecem algum conforto e solução caso contrário não haveriam tantos fiéis. Mas isso é servir pimenta ardida mascarada de tempero saboroso… Outras religiões já não são tão perversas, mas fazem acreditar que sexo só deve ser feito depois do casamento, que gays não são filhos de Deus e que bebidas alcoólicas são coisa do demônio. Eu não entendo essa privação de prazeres, porque é que não se pode pensar diferente, amar diferente e gostar de vinho do porto… Não se pode ser feliz e ter prazeres para ser filho de Deus? Há algo de impuro em quem não leva a vida amargamente, de forma penosa? Lógico que eu entendo os ateus…

Nada na vida deve nos afastar do nosso livre arbítrio, tampouco do nosso pensamento. Eles são as nossas chaves mestras para a nossa felicidade íntima. Eu compreendo os ateus que se mantém ateus por amor a vida. Não compartilho de nenhuma idéia religiosa fervorosa. Mas sim, vivo a minha religiosidade e minha espiritualidade como meios que me fizeram imensamente feliz.

É perigoso isso, nos dias de hoje estar ligado e servir a uma religião é correr risco de ser taxado como não pensante. E eu entendo isso, afinal as próprias religiões trabalharam arduamente anos a fio para isso. Gostaria que o ar sisudo ortodoxo religioso desse brecha para a felicidade solta e para a liberdade. Todos seriam mais amados e respeitados. E os que se protegem dentro do ateísmo e do ceticismo por amor a sua liberdade de pensar teriam chance de cultivar sua espiritualidade em paz. Queria que fosse assim. Uma utopia da minha cabeça desejar que as pessoas olhassem a espiritualidade com um amor leve e sereno; desejar que dirigentes espirituais não traiam a liberdade de amor e pensamento daqueles que os procuram e por fim desejar que os que tem medo da espiritualidade vejam-na como reflexo da beleza através dos seus próprios olhos…

Um dia o sol já girou em volta da Terra. Quem sabe chegamos lá?

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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