“Só a poesia lê o mundo”, por Mia Couto

Nesta rubrica apresentarei os valores novos da literatura moçambicana. A primeira escolha recaiu sobre Hirondina Joshua, uma jovem ainda sem livro publicado mas já um nome de referência naqueles que estão fadados a manter viva a herança dos nossos grandes poetas como José Craveirinha, Noémia de Sousa, Heliodoro Baptista, Eduardo White.

Conheci a obra de Hirondina antes da pessoa. Era visível por aqueles primeiros textos que me chegaram que a poesia habitava aquela alma. Quando, por fim, conheci a mulhet fiquei surpreso. Magra, quase sem corpo. Tímida, quase srm voz. Depois, se percebe: a energia de Hirondina está toda na palavra. Desde 1987, ano em que nasceu, esta moçambicana olhou o mundo pela janela da sensibilidade poética.

As profundas rupturas e transiçôes vividas por Moçambique pediam um olhar que apenas a poesia pode dar conta. Um livro de Hirondina Joshua anuncia-ss para breve. Valerá a pena ler esses poemas e todos os outros que se encontram publicados em revistas e jornais. É esta vencedora de uma menção extraordinária do Prémio Mundial de Poesia Nósside na sua edição de 2014 que tenho o gosto de vos apresentar.

Texto publicado por Mia Couto na Revista Índico.

Abaixo, dois poemas de Hirondina Josua:

Hegemonia

O voo pode ser feito pelas mãos
pelos braços
pés
ou cabeça…
o voo essencial
não tem corpo
pode não respeitar
o medo.
O voo assim a fechar o círculo…
parece
transparente
nu
conhece o céu
a retina, e sua pupila
vibra na boca do coração de uma criança.
O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos…
***

Visto

Visto
na
epiderme
a
gestação
nua
da raça.
***

O livro de Hirondina, “Os ângulos da casa” será lançado amanhã, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo.
Lançamento do livro