“Lacan, Freud, Benjamin Button etc”, por Paulo Azevedo

Percebi que estou me comportando como um velho,
o mais ranzinza e inflexível de todos.
O mais ausente do corpo,
o menos ativo diante das mudanças que
a tecnologia nos imprimiu.
Sou velho.

Também tenho estado adulto demais.
Severo com as contradições do vizinho,
moralista tantas e tantas vezes sem ao menos assim perceber.
Impecável nas responsabilidades com a família.
Projetista, bancário, falido, educador, pai.
Sou adulto.

Curiosamente, não me escapa a juventude.
Acordando toda a noite com muitos sonhos,
os mesmos que a vida adulta tenta sucumbir.
Os mesmos que outrora pensei ser possíveis na fase anterior.
O tudo e o nada, justapostos, em eixos não distantes.
Sou jovem.

E eis, que tão somente me encontro perdido na adolescência tardia.
Puberdade furiosa, cuja longevidade se dá na tranca do banheiro e
vê-se o tempo escoar pelo ralo junto com pêlos e fluidos.
São tramas entre o prazer e o pânico da sexualidade mal explicada.
São vontades incompreendidas por todo o corpo e suas cores berrantes.
Sou adolescente.

Percebi que estou me comportando como criança, a mais ingênua e mimada de todas.
Mas, também a mais gentil a saborear a água do mar, o ruído do trator e
o riso dos desenhos animados;
assim, embebido em namoro no olhar de minha mãe,
na frequente ternura desperta pelo colo do meu pai,
“contaminado” pela presença de um mundo de fantasias e sonhos.

Sonhos que a adolescência depois imaginou,
que a juventude percorreu,
que a vida adulta matou,
que a velhice não viveu.
Acho que vou precisar ficar mais tempo por aqui, neste canal da infância.
Afinal, a poesia serve pra que?

Paulo Emílio Azevedo, o poeta PAz é
Escritor, professor, coreógrafo e Doutor em Ciências Sociais. Recebeu o prêmio “Rumos Educação, Cultura e Arte”/Instituto Itaú Cultural, 2008 e “NADA SOBRE NÓS SEM NÓS”/ESCOLA BRASIL/MINC, 2011, entre outros. Publicou os livros “Tagarela, o penúltimo registro do slam poetry no Brasil”, 2014 (org); “Notas sobre outros corpos possíveis”, 2014; “Palavra projétil, poesias além da escrita”, 2013 e “Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M.”, 2008. Idealizador do sarau Tagarela, sendo um dos introdutores da prática e pesquisa do POETRY-SLAM no Estado do Rio de Janeiro, desde 2006. Seus dois atuais projetos são: Cia Gente/ redes de protagonismos e criação e Fundação Paz, dedicado a suas publicações.

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