Por Octavio Caruso

O cinema sempre aborda o fascinante período da infância, mas são poucos os roteiros que realmente equilibram o encantamento nostálgico e a compreensão de que essa etapa não representa apenas alegria. É uma fase da vida que pode alternar, em questão de horas, despretensiosa diversão e angústia, beleza e dor. A criança, na total dependência emocional dos pais, pode sofrer. Eu selecionei abaixo títulos essenciais que trabalham todas essas vertentes, obras muito conhecidas e pérolas que merecem maior reconhecimento.

Eu Existo (Jestem – 2005)
Um menino de onze anos foge do orfanato e volta para uma mãe alcoólatra, ele terá que amadurecer rápido. O tema forte é trabalhado com preciosismo pela diretora polonesa Dorota Kedzierzawska. Alguns diálogos ferem mais que qualquer agressão física. Prepare o lenço!

Os Meninos da Rua Paulo (A Pál Utcai Fiúk – 1969)
Existe uma hierarquia no exército de crianças da Rua Paulo, onde o frágil e esforçado soldado raso Nemecsek tenta a todo custo demonstrar seu valor perante o corajoso general João Boka. Eles não lutam por alguns metros quadrados em um terreno baldio, lutam para conquistar a liberdade e pelo direito de exercerem plenamente sua criatividade.

Conta Comigo (Stand by Me – 1986)
Obra muito popular adaptada de um livro de Stephen King, passava com frequência na “Sessão da Tarde”. Quatro crianças partem em uma viagem para encontrar o corpo de um amigo desaparecido, uma aventura que irá moldar para sempre suas vidas.

O Espírito da Colmeia (El Espíritu de La Colmena – 1973)
A fantasia evocada pela presença do clássico monstro de “Frankenstein” faz com que a pequena Ana se entregue a um mundo de ilimitadas possibilidades criativas, onde a ilusão e a realidade frequentemente se misturam, tornando-se indistinguíveis, algo comum na mente de uma criança.

Labirinto – A Magia do Tempo (Labyrinth – 1986)
A jovem Sarah conquistou segurança e amadureceu em sua aventura, está preparada para novos desafios, mas ela sabe que sempre poderá acessar o mundo mágico de sua infância, a matéria dos sonhos, as lembranças doces que, ao final de tudo, caso você tenha se mantido íntegro, estarão presentes aplaudindo com entusiasmo o fechamento das cortinas no espetáculo de sua existência.

Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman – 1997)
Em uma família muito pobre, um menino perde o único par de sapatos da irmã e passa a dividir o seu com ela. A ideia simples desse filme iraniano se desenvolve de forma encantadora e poética, calcada na amizade que se fortalece entre as duas crianças.

A Infância de Ivan (Ivanovo Detstvo – 1962)
Uma criança psicologicamente destruída pela guerra, tentando, com incrível resiliência, esforço transmitido elegantemente na opção do diretor pelas poéticas sequências oníricas, manter viva uma réstia de inocência, confrontando a crueldade dos adultos. Toda sua família foi assassinada pelos nazistas.

Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro – 1988)
O diretor Miyazaki é autobiográfico, a sua mãe passou anos no hospital com tuberculose quando era menino, conseguindo sobreviver e voltar para o convívio do lar. Diferente das animações infantis ocidentais, não é mostrado que os problemas são plenamente resolvidos ao final, preferindo apresentar para as crianças um mundo realista onde devemos aprender a lidar com os eventuais obstáculos, sabendo que a verdadeira felicidade pode residir no meio termo entre a angústia e a esperança de solução.

Cria Corvos (Cría Cuervos – 1976)
Como uma criança lida com a morte? Essa pérola do diretor espanhol Carlos Saura sintetiza a turbulência interna de sentimentos, as memórias tristes que forjam o caráter. E, vale destacar, a canção “Porque te vas”, interpretada por Jeanette, vai ficar na sua mente por muito tempo.

Meu Primeiro Amor (My Girl – 1991)
Vivendo em um ambiente fúnebre e acreditando ser responsável pela morte da mãe, a pequena Vada isola seus sentimentos em algum recôndito sombrio, deixando transparecer arroubos de rebeldia em breves momentos. Por não se doar, também não permite que outros a amem, mas tudo muda quando ela descobre que está apaixonada pelo frágil Thomas. Juntos eles irão trilhar o caminho da maturidade emocional, cheio de obstáculos e decepções.

Moonrise Kingdom (2012)
Ao optar por deixar de lado a visão cínica de mundo, onde cada passo parecia ser extremamente calculado, entregando-se à inocência passional do cineasta que o próprio Wes Anderson provavelmente gostaria de ser quando criança, ele entrega um conto de maturidade muito original, caloroso e genuinamente engraçado sobre a mágica descoberta do amor na infância.

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups – 1959)
O primeiro filme do mestre François Truffaut é inesquecível, vai muito além da sequência final plena em simbolismo, Antoine Doinel, cansado do desprezo dos pais, vai buscar na sala de cinema o aprendizado que não encontra no sistema educacional autoritário.

O Balão Branco (Badkonake Sefid – 1995)
Uma cena em particular sempre me comove, quando a menina reclama com o vendedor do peixe, dizendo que ele não é robusto como o que ela havia visto na primeira vez. Ele pede que ela o olhe de outro ângulo para vê-lo maior. Ela deixa de olhar por cima do vaso e, com um cativante sorriso no rosto, passa a admirar o belo e robusto peixe que agora nadava à sua frente, aumentado pela ilusão do vidro. Simples e tocante cena que evoca a pura ingenuidade da criança em um mundo dominado pela indiferença dos adultos.

Ponette (1996)
Filme muito pouco lembrado, um dos roteiros mais ternos sobre o tema, uma verdadeira joia. Ponette, menina que precisa lidar com a morte da mãe é abandonada em um colégio interno, busca alento de várias formas, apela para o sobrenatural e descobre que a vida não entrega respostas fáceis. A pequena Victoire Thivisol recebeu um merecido prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza.

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Octavio Caruso
Escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).


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